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Na Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, Pedro Arantes refletiu sobre um modelo inovador de Ensino Superior que enfrente os desafios contemporâneos e promova o desenvolvimento social no Brasil

Tamires Tavares

De 14 a 20 de outubro ocorreu a 21ª Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT), principal evento de divulgação científica do país, realizado por iniciativa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). A Unifesp, com atividades em todos os seus campi, participou da discussão sobre os impactos das tecnologias sociais na construção de projetos inovadores nas áreas científica e tecnológica e reforçou o protagonismo das universidades públicas na promoção de um futuro mais sustentável e inclusivo, integrando saberes acadêmicos e tradicionais em sua missão de escuta e construção coletiva da sociedade.

A Escola Paulista de Política, Economia e Negócios (EPPEN/Unifesp) convidou o Prof. Pedro Fiori Arantes, coordenador do SoU_Ciência, para ministrar uma palestra inspirada nas ideias de Darcy Ribeiro, renomado cientista social e ex-ministro da Educação. Arantes discutiu o conceito de Universidade Necessária e os desafios contemporâneos da Educação Superior no Brasil, oferecendo uma análise crítica e apontando a sua relevância na atualidade. A palestra enfatizou a importância de uma universidade comprometida com o desenvolvimento nacional e com a superação das desigualdades sociais e econômicas que persistem no país.

Um dos principais pontos apresentados pelo palestrante foi a criação da Universidade de Brasília, que Darcy Ribeiro concebeu como um modelo inovador de Ensino Superior. De acordo com Arantes, a UnB foi estruturada para oferecer uma formação interdisciplinar através dos Institutos Centrais, que proporcionariam aos estudantes uma introdução aos fundamentos das ciências humanas, exatas e biológicas, antes de iniciar sua especialização nas Faculdades. Além disso, órgãos complementares, como bibliotecas, museus e serviços de assistência médica, compunham o projeto, com o objetivo de expandir a função cultural e social da universidade. 

Esse modelo, porém, foi interrompido com o golpe militar de 1964, que resultou na intervenção da UnB, demissões em massa de professores e repressão aos movimentos estudantis, fato que Arantes enfatizou como um marco trágico na história da universidade brasileira.

O professor também abordou as reformas de base dos anos 1960, das quais a reforma universitária era parte essencial, visando transformações estruturais no país. A democratização do Ensino Superior foi um dos pilares defendidos por Ribeiro e pelos movimentos estudantis, que buscavam incluir estudantes nos órgãos de deliberação das universidades, uma conquista parcialmente realizada na "Greve do 1/3". Essa proposta visava equilibrar a participação entre professores, estudantes e ex-alunos, tornando a universidade mais democrática.

Durante a palestra, Arantes apresentou os 55 princípios propostos por Darcy Ribeiro para a reforma universitária, dentre os quais destacou a necessidade de respeitar padrões internacionais de produção de conhecimento, mas sem desconsiderar os problemas de desenvolvimento da sociedade brasileira. Ribeiro defendia uma educação inclusiva, propondo a abolição do vestibular e a adoção de modalidades de ensino acessíveis, como cursos noturnos e por correspondência, antecipando o que hoje conhecemos como ensino a distância. No entanto, Arantes alertou que, apesar da modernização digital, a qualidade do ensino a distância em muitas instituições, especialmente privadas, tem sido comprometida, levando à mercantilização da educação.

A autonomia universitária foi outro tema central da palestra. Arantes enfatizou que essa autonomia é crucial para garantir que as universidades exerçam sua função crítica e educativa sem interferências externas, e mencionou os recentes ataques à autonomia, como a nomeação de reitores sem consulta à comunidade acadêmica durante o governo Bolsonaro, o que comprometeu a gestão democrática em universidades federais.

Em sua análise dos desafios atuais, o docente observou que a expansão do Ensino Superior no Brasil ocorreu de maneira precária, frequentemente devido à falta de infraestrutura e aos cortes de investimento. Citou o exemplo do campus da Unifesp em Osasco, que enfrentou atrasos significativos desde 2016. "A expansão deve ser acompanhada de qualidade. Não podemos ter aulas em barracões ou prédios improvisados, em situações precárias", ressaltou, defendendo mais investimentos e infraestrutura adequada.

O professor ainda expôs a visão de Ribeiro sobre a extensão universitária, defendendo que as atividades de extensão devem ir além de iniciativas caritativas, com a universidade tendo a obrigação de prestar serviços públicos de qualidade à sociedade. Ao final, refletiu sobre o legado de Darcy Ribeiro, afirmando que o conceito de "universidade necessária" é atemporal, e ainda mais relevante atualmente: "Ribeiro defendia uma universidade para todos, que resolvesse os problemas do Brasil. Isso contempla problemas históricos, como a desigualdade e o racismo estrutural, e também desafios contemporâneos, como a era digital, a financeirização, a precarização do trabalho e a crise climática e ambiental”, ressaltou o coordenador do SoU_Ciência.

A gravação da palestra pode ser acessada no canal da EPPEN/Unifesp no YouTube.