Livro reúne diálogos entre especialistas para discutir estratégias de combate à desinformação científica e fortalecer a confiança pública
Tamires Tavares
A obra Enfrenta: enfrentamento da desinformação na ciência destaca a urgência de ações coordenadas para combater a desinformação científica, reunindo atores sociais de diversos campos com o objetivo de fortalecer tanto o conhecimento científico quanto a democracia. Essa iniciativa surge em um cenário de crise de confiança na ciência e na política, exacerbado pela pandemia e pelo aumento de informações falsas que prejudicam a sociedade e a saúde pública.
Publicado pela Academia de Ciências da Bahia (ACB) e pela Fundação Conrado Wessel (FCW), o projeto contou com a participação de pesquisadores, políticos, jornalistas e representantes da sociedade civil, que discutem estratégias para enfrentar a desinformação no Brasil, e foi conduzido pelo Prof. Manoel Barral-Netto, presidente da ACB, e pelo Prof. Carlos Vogt, diretor-presidente da FCW.
Organizado em várias seções temáticas, o livro digital é fruto de uma série de encontros do projeto Enfrenta!, webnários realizados no segundo semestre de 2023 em parceria com instituições como o Centro de Estudos SoU_Ciência, o Departamento de Ciência e Tecnologia do Ministério da Saúde (Decit/MS), a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o Instituto Ciência na Rua, o Instituto Serrapilheira e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Disponíveis ao público por vídeos e relatórios, os debates abordam desde as motivações sociais e políticas por trás da desinformação até reflexões sobre o papel da comunicação social na preservação da democracia, formando um esforço essencial para enfrentar o impacto das narrativas enganosas que minam a confiança nas instituições científicas e democráticas.
A obra originada desses encontros reflete, principalmente, a preocupação com o descrédito na ciência e destaca ações concretas para restabelecer a confiança no conhecimento científico. A abordagem transita por aspectos históricos, jurídicos e sociopolíticos, evidenciando o papel das mídias sociais na amplificação de fake news e narrativas enganosas, especialmente no campo da saúde. A publicação ainda propõe caminhos para melhorar a transparência, o acesso e a verificação da informação, valorizando a ciência como pilar da verdade e da justiça social.
O livro conta com as contribuições da coordenadora-geral do SoU_Ciência, Prof.ª Soraya Smaili, da presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC), Prof.ª Helena Nader, e do diretor-presidente do Instituto Serrapilheira, Dr. Hugo Aguilaniu, e prefácio do presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Prof. Renato Janine Ribeiro.
Em seu texto, Smaili, que também mediou o webnário “Estratégias de enfrentamento do descrédito na ciência e da desinformação social”, enfatiza a urgência em combater a "desinformação intencional", acelerada pelas redes sociais e amplificada durante a pandemia, que enfraqueceu a confiança na ciência e afetou a saúde pública. Segundo a professora, a mobilização da comunidade científica brasileira, ao disseminar informações corretas e reforçar a confiança pública, é crucial para enfrentar esse desafio. Ela reforça ainda que as iniciativas do Enfrenta! são indispensáveis para subsidiar políticas públicas contra a desinformação, como a regulação das plataformas digitais e a formação de cientistas em comunicação, promovendo o combate por meio da educação e da inclusão.
A primeira seção do livro, “Democracia, esfera pública e desinformação”, contextualiza a relação entre comunicação e democracia, analisando como a desinformação ameaça a esfera pública e enfraquece o debate democrático. Referências a teóricos como Jürgen Habermas fundamentam essa análise, enquanto especialistas discutem o papel das mídias sociais e a erosão da confiança nas instituições democráticas, sinalizando os riscos do engajamento digital sem moderação. A seção alerta para a necessidade urgente de regulações que impeçam a difusão de conteúdos enganosos.
Já a segunda seção, “Visões e ações do Executivo e do Legislativo no tema da desinformação científica”, detalha os esforços do governo brasileiro para responder à desinformação, especialmente no campo da saúde. A criação de campanhas de conscientização e a atuação interministerial são descritas como passos importantes, mas que ainda enfrentam o desafio da descrença popular. Figuras públicas compartilham suas percepções sobre a resistência às vacinas, por exemplo, e discutem a importância de alianças entre o governo e empresas de tecnologia para monitorar e coibir a disseminação de mentiras nas redes sociais.
Na sequência, o terceiro bloco, “Estratégias de enfrentamento do descrédito na ciência e da desinformação Social”, examina iniciativas que promovem a educação midiática e a conscientização sobre a importância da verificação de informações. Projetos como o Comprova mostram como o jornalismo investigativo pode ajudar a detectar e corrigir fake news, enquanto debates sobre a responsabilidade das plataformas digitais ressaltam a necessidade de uma maior transparência nos algoritmos. A seção reflete sobre o impacto psicológico da desinformação, especialmente quando esta apela a medos e emoções.
As duas últimas seções — “Impacto da desinformação e do ceticismo na ciência” e “Reforço do potencial positivo da comunicação social da ciência” — reforçam a importância da comunicação científica para informar e proteger a sociedade. Exemplos de colaborações bem-sucedidas entre mídia e ciência são apresentados, sugerindo que o combate à desinformação exige uma rede de apoio robusta entre pesquisadores, jornalistas e o público.
Entre os registros das colaborações com o projeto Enfrenta!, destacam-se nomes do SoU_Ciência, como o coordenador do centro, Prof. Pedro Arantes, que apresentou dados sobre fatores políticos e religiosos que influenciam a aceitação da ciência, especialmente a vacinação, e destacou a politização do tema, que levou parte da população a resistir às vacinas. Ele também discutiu como a desinformação impacta a percepção pública sobre as universidades, com muitas pessoas questionando a qualidade das pesquisas acadêmicas, apesar da relevância dessas instituições na produção científica do país.
Outro destaque é a participação da Prof.ª Mariluce Moura, pesquisadora do SoU_Ciência, jornalista científica e criadora da revista Pesquisa Fapesp e do projeto Ciência na Rua. Em sua exposição, apresentou iniciativas de sucesso do jornalismo periférico, que usam uma linguagem acessível e gírias locais para dialogar com o público da periferia, levando conteúdos de ciência e tecnologia diretamente a essas comunidades. Ela defende que o jornalismo de periferia não apenas amplia o alcance das informações científicas, mas também se torna um poderoso recurso para a transformação social e o combate direto à desinformação que afeta a produção científica e a credibilidade pública.
Em suma, Enfrenta é uma obra essencial para compreender as complexidades da desinformação intencional e seu impacto sobre a democracia e a ciência. Com argumentos sólidos e relatos de casos práticos, a publicação apresenta propostas para enfrentar o descrédito na ciência e promover uma sociedade mais informada e consciente. Destinada tanto a profissionais da comunicação quanto ao público em geral, a leitura se revela um chamado à ação coletiva para proteger o espaço democrático e fortalecer a ciência frente aos desafios atuais.