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Na Semana da Educação na Unifesp, Maria Angélica Minhoto discutiu a necessidade de resistir à mercantilização da Pedagogia e fortalecer as instituições públicas

Tamires Tavares

Durante a IX Semana da Educação, organizada pelo Centro Acadêmico de Pedagogia (CAPed) e realizada de 14 a 18 de outubro na Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (EFLCH) da Unifesp, a Prof.ª Maria Angélica Minhoto, coordenadora do SoU_Ciência, apresentou a palestra "Pedagogia em foco: formação docente e Ensino Superior". A mesa foi mediada por Gustavo Von, coordenador geral do CAPed. Sob o tema central "Educação em tempos de crise: o lugar da escola enfrentando as desigualdades crescentes", a edição abordou os desafios das escolas públicas de Guarulhos e de seus educadores na atual conjuntura. Também estavam presentes a Prof.ª Ellen de Lima Souza, pesquisadora do SoU_Ciência e colaboradora do estudo apresentado, e o Prof. Bruno Comparato, diretor acadêmico da EFLCH.

Na sua apresentação, a Prof.ª Maria Angélica discutiu a transformação dos cursos de Pedagogia no Brasil nos últimos anos com a mercantilização do ensino, utilizando dados do Painel da Expansão do Ensino Superior Privado do SoU_Ciência, obtidos a partir do Censo da Educação Superior e do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade) até 2021. A palestrante apontou um processo de "deformação em larga escala" na formação docente, caracterizado pela crescente concentração de matrículas em instituições privadas, muitas das quais oferecem cursos predominantemente a distância (EaD). Esse modelo prioriza o ensino, mas deixa de lado a pesquisa e a extensão, resultando em uma formação fragilizada para os futuros professores.

A expansão do ensino superior privado ganhou força a partir de 1997, quando passou a ser permitida a atuação de instituições com fins lucrativos. Esse marco facilitou a aquisição de pequenas instituições por grandes grupos, que hoje dominam o setor educacional. Em 2024, um levantamento revelou que as dez maiores instituições concentram a maioria das matrículas nos cursos de Pedagogia, somando mais de 6 milhões de estudantes no ensino superior brasileiro.

A qualidade dos cursos oferecidos pelas instituições privadas também foi criticada. Os cursos na modalidade EaD são marcados por materiais didáticos padronizados e pouco contato entre alunos e professores, e muitos docentes contratados não têm doutorado. Além disso, a alta proporção de alunos por professor compromete a qualidade do ensino e não há incentivo para pesquisa e extensão. Minhoto destacou que muitas dessas universidades lucram com as matrículas iniciais, mas não investem na permanência dos estudantes, resultando em taxas de evasão superiores a 60% nos grandes grupos privados.

A pesquisadora aponta que outro fator para uma formação insuficiente nestas instituições privadas é a falta de integração de outros aspectos da educação, como as relações interpessoais. “Em geral, elas são voltadas fundamentalmente para o ensino, mas carecem de pesquisa, extensão, internacionalização e vida universitária. Falta o espírito universitário, o que resulta em um ensino de qualidade muito baixa. Nessas condições, como um professor pode se formar de maneira adequada, especialmente considerando que a relação educativa é uma relação social extremamente importante, que exige a presença física?”, declara.

Em sua exposição, a Prof.ª Maria Angélica Minhoto destaca que a formação docente insuficiente impacta diretamente os estudantes nas escolas, que precisam de professores bem preparados para receber uma educação de qualidade. / Crédito: Tamires Tavares

Os dados do Enade de 2021 ilustram as disparidades de qualidade entre instituições públicas e privadas. Enquanto 96,9% das faculdades particulares com cursos de Pedagogia EaD obtiveram conceitos 1 ou 2 (insatisfatórios), apenas 18,8% dos cursos de Pedagogia das universidades públicas receberam essas notas, com cerca de 65% dos cursos presenciais públicos obtendo conceito 4 ou superior. Destaca-se que o desempenho dos alunos cotistas nas universidades públicas tem contribuído significativamente para melhorar as notas no exame, evidenciando os resultados positivos das políticas de inclusão.

Minhoto também destacou as dificuldades de inserção no mercado de trabalho para os formados em Pedagogia, especialmente aqueles oriundos de cursos de baixa qualidade. Apenas 38,4% dos formados em 2017 estavam empregados formalmente em 2018, com uma média salarial de R$ 2.500,00 para egressos de instituições privadas e de até R$ 3.097,00 para graduados em instituições públicas federais. Em contraste, 84% dos formados em 2021 nas instituições públicas estavam inseridos no mercado de trabalho um ano após a graduação.

Outro ponto abordado foi a necessidade de fortalecer as políticas de permanência estudantil nas universidades públicas, como o Programa de Auxílio ao Estudante (PAPE), que beneficiou 155 dos 711 egressos do curso de Pedagogia da Unifesp em 2021. A Unifesp também foi apontada por ter um histórico positivo de encaminhamento de seus egressos para programas de pós-graduação, com muitos estudantes continuando sua formação no mestrado e no doutorado.

Minhoto conectou a sua exposição ao tema central do evento, lembrando que a baixa qualidade nos cursos de Pedagogia compromete não apenas a formação dos futuros docentes, mas, consequentemente, a educação básica, que depende de professores bem preparados para assegurar a sua qualidade. "Quando você forma mal um professor, que legado você está deixando ao país? A formação de professores impacta desde os anos iniciais do ensino fundamental, da educação infantil, até o fundamental II e Ensino Médio. Você prejudica a população duplamente", ressaltou.

No debate final também foi destacada a importância da discussão sobre a padronização dos currículos de formação de professores, como prevê a Base Nacional Comum para a Formação Inicial de Professores da Educação Básica (BNC-Formação), e as reformas na estrutura dos cursos de licenciatura.