Estudo revela como a formação inadequada de pedagogos compromete a qualidade do ensino no Brasil
Tamires Tavares
O estudo Expansão e mercantilização dos cursos de Pedagogia: deformação em larga escala de futuros pedagogos, publicado por pesquisadores do SoU_Ciência no periódico Educação em Revista, do Programa de Pós-Graduação em Educação: Conhecimento e Inclusão Social da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (FaE/UFMG), levanta questões sobre a formação de pedagogos no Brasil e seus impactos na qualidade da Educação. A pesquisa, conduzida por Maria Angélica Pedra Minhoto, Carlos Eduardo Bielschowsky e Thiago Borges Aguiar, identifica o que os autores chamam de "deformação em larga escala" na formação desses profissionais.
Para a Prof.ª Maria Angélica Minhoto, os resultados obtidos são fundamentais para análises sistêmicas da Educação, pois demonstram que os impactos se estendem não apenas aos cursos de Ensino Superior, mas também à Educação Infantil e aos anos iniciais do Ensino Fundamental. “No curso de Pedagogia, ao obter um diploma de licenciatura, o profissional pode lecionar na Educação Infantil e tem a possibilidade de atuar nos primeiros anos do Ensino Fundamental, geralmente como docentes polivalentes”, explica a pesquisadora. “Nesses primeiros anos, as crianças desenvolvem habilidades essenciais para compreender conceitos mais complexos que serão abordados no Ensino Fundamental II e no Ensino Médio, preparando-as para escolhas profissionais em áreas como Ciências, Medicina, Direito e Engenharia. Portanto, se a Educação Básica não for de boa qualidade, não teremos profissionais capacitados para assumir funções importantes na sociedade, incluindo a de professor”, reforça.
Pesquisadores afirmam que, em contexto de mercantilização dos cursos de graduação, os princípios educacionais são tratados como produtos, priorizando o lucro em detrimento da qualidade do ensino. / Créditos da imagem: Dênio Simões/Agência Brasília
O atual cenário de preocupação em relação à qualidade do ensino se desenrolou nas últimas décadas com um aumento significativo nas matrículas do Ensino Superior, especialmente em instituições privadas, que já representam 78% do total. O estudo, com base nos dados do Painel Expansão do Ensino Superior Privado, revelou que, em 2021, "59,9% das matrículas e 70,8% dos ingressos em cursos de Pedagogia estavam concentrados nas dez maiores instituições privadas do país", muitas das quais oferecem cursos a distância. Os pesquisadores destacam que essas instituições "apresentam uma presença mínima de pós-graduação e pesquisa, além de fornecerem condições precárias para o trabalho docente".
Os dados do Exame Nacional de Desempenho do Estudante (Enade) mostram que "76,5% dos alunos de Pedagogia a distância estavam em cursos com notas consideradas baixas", com essa porcentagem subindo para "88,4% em grandes grupos privados". Além disso, a taxa de evasão nesses cursos é alarmante, acumulando "27% a mais do que outras instituições privadas e 75% a mais do que as públicas". Os autores consideram essa formação deficiente, visto que "a maioria dos graduados não consegue mobilizar saberes para acertar mais do que 40% das questões da prova".
O estudo conclui que, sem uma reavaliação das bases que sustentam a expansão do Ensino Superior privado, a qualidade da formação de pedagogos no Brasil continuará em declínio, impactando diretamente o futuro das crianças e, consequentemente, o futuro do país. “Essa questão deve ser uma prioridade tanto para os governos quanto para a sociedade civil. A melhoria da educação é um passo fundamental para o desenvolvimento social e econômico de um país, começando na Educação Básica e se estendendo à formação de bons professores na Educação Superior”, declara Minhoto.
Uma análise sobre os resultados do estudo pode ser lida no site do Le Monde Diplomatique Brasil.