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Estudo revela como a mudança desses ambientes impacta na criatividade e na decisão por escolhas mais assertivas

Por Debora Foguel

A pandemia nos impôs o distanciamento físico e a necessidade de trabalharmos de forma remota em domicílio, certamente possibilidade para apenas uma parte dos trabalhadores(as) que assim o puderam fazer. Escolas também migraram para o ensino remoto, com consequências devastadoras, em especial para crianças e jovens de famílias vulneráveis. Passados esses anos, muitas empresas e pessoas reportam preferir essa modalidade de trabalho por inúmeros motivos que aqui não cabem ser elencados. Alguns estudos mostram que, pelo menos nos EUA, 20% do trabalho será mantido na forma remota. Não conheço esse dado para o Brasil e talvez exista e mostre algo muito próximo.

Mas, de fato, quais os impactos que a mudança para o ambiente virtual traz ao mundo do trabalho, em especial no que tange à geração de ideias colaborativas novas? Essa pergunta pode, certamente, ser expandida para o ambiente universitário, celeiro de ideias novas e do avanço do conhecimento e, por isso, me interessei por uma publicação deste ano da revista Nature (vol. 605, pág. 108), que endereça e investiga esse tema. O título do estudo (“A comunicação virtual restringe a geração de ideias criativas”) já denuncia os achados do grupo. Mas vamos lá, explorar um pouco mais o que fez o grupo da Universidade Columbia (EUA).

Cabe antes de descrever os achados do grupo relembrar que a colaboração entre pessoas está na origem de muitas ideias ditas geniais e inovadoras, como aquelas que impulsionam os avanços científicos, novos produtos comerciais, produções artísticas, dentre tantas outras. Antes dos avanços das tecnologias de informação (TICs), esses avanços dependiam do encontro presencial, já que as ligações telefônicas, por exemplo, eram caras; cartas tardavam a chegar e mesmo o e-mail era limitante em termos de espaço para descrição dessas ideias, além de ser assíncrono. Vários desses obstáculos foram superados com os avanços das TICs, que permitem “encontros” entre pessoas de forma síncrona, onde um é capaz de ver e ouvir o outro, podendo-se compartilhar arquivos de toda sorte, inclusive fazer conferências por vídeos com dezenas, centenas de pessoas ao mesmo tempo.  E está a caminho o Metaverso, que aqui também não pretendo discutir. Essas enormes conquistar poderiam, então, nos levar a concluir que, sim, as TICs poderiam substituir os encontros entre as pessoas de forma efetiva inclusive no mundo do trabalho criativo! De minha parte, eu já responderia que não, as TICs não são capazes de substituir o ‘olho no olho’! O retorno presencial recente à universidade, às reuniões e à sala de aula já me ajudaram a relembrar e vibrar com a potência dos encontros entre pessoas! As TICs podem ajudar em vários contextos, mas não substituir o encontro!

 Mas, o que poderia impactar a criatividade nessas duas formas de comunicação, presencial e virtual? Pessoas que interagem de forma presencial operam no espaço físico tridimensional e rico de informações no entorno, informações que são fundamentais para enriquecer a cognição, conforme já apontado em estudos, ao passo que na opção virtual a tela do computador se torna o foco da atenção e o entorno perde em importância. Essa limitação de foco limita o processo associativo que permeia a geração de ideias e dificulta que os pensamentos se ramifiquem e ativem informações díspares que são, então, combinadas para formar novas ideias.

 Por outro lado, uma vez que várias ideias novas são geradas, algumas podem não ser efetivas, o que implica que dentro deste conjunto precisa-se selecionar ideias a serem executadas, o que requer foco e análise racional do grupo envolvido.

O estudo aqui descrito analisou o número de ideias produzidas e a efetividade na escolha destas ideias por duplas de estudantes de graduação que optavam se queriam trabalhar através de vídeoconferências ou de forma presencial. Para tal, foram recrutados 602 estudantes, distribuídos aleatoriamente em duplas a quem se apresentou um problema e se pediu que ideias/soluções fossem geradas numa janela temporal e que, ao final, a dupla selecionasse dentre as ideias que havia gerado aquelas que consideravam mais criativas e efetivas.

Os resultados mostraram inequivocamente que as duplas que escolheram trabalhar de forma virtual geraram significativamente menos ideias e menos ideias criativas do que as duplas que escolheram trabalhar de forma presencial. Por outro lado, os dados revelaram que a interação virtual parecia ter aumentado a qualidade das decisões e escolhas de ideias, mas quando os dados foram tratados de forma estatística e normalizados pelo número de ideias geradas nos dois grupos – virtual ou presencial – não se verificou diferença significativa. Ou seja, o trabalho presencial permite uma maior geração de ideias, mas a escolha dessas ideias não parece ser influenciada pelo ambiente – virtual ou presencial - onde a decisão foi tomada.

Os autores também investigaram se a hipótese deles, de que a necessidade de foco na tela com pouca influência do entorno que ocorre no espaço virtual, é o que limitava a geração de novas ideias nesse ambiente. Para tal, eles colocaram adereços na sala onde o experimento estava sendo realizado e observaram que os participantes que estavam presentes eram capazes de identificar e descrever melhor e com mais frequência esses adereços, ao passo que os que estavam no espaço virtual apresentavam dificuldade em perceber esses mesmos adereços, confirmando que estavam focados nas suas telas.

Uma vez que esse experimento havia sido feito em laboratório com estudantes de graduação, os autores realizaram análises similares em uma empresa (ambiente de trabalho real) e, para tal, 1490 engenheiros foram recrutados para a nova fase do estudo, que foi realizada também em duplas, que atuaram de forma virtual ou presencial conforme a escolha, como no experimento laboratorial. Também foi mensurada a quantidade de novas ideias geradas para a solução de um determinado problema pelas duplas e a seleção daquelas melhores para a execução. Mais uma vez, foram obtidos os mesmos dados anteriormente descritos, ou seja, o mundo virtual compromete de forma significativa a quantidade e a qualidade da geração de ideias entre as pessoas, mas a escolha dessas ideias não sofre impacto pelo ambiente onde essas escolhas são feitas. Várias outras comparações foram feitas pelos autores, como a quantificação dos sentimentos subjetivos de proximidade, a diferença no comportamento verbal e não verbal e o mimetismo, onde não se encontrou evidências de que a modalidade de comunicação afeta esse tipo de conexão social.

Concluindo, a nossa criatividade depende de estarmos juntos e da nossa convivência em espaços de trabalho e acadêmicos e, penso eu, também no espaço escolar!

 Débora Foguel é professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisadora do SoU_Ciência